Apostar nos mercados internacionais foi, mais do que uma visão, uma necessidade. Agora que as exportações já significam 11 por cento do mobiliário europeu, a estratégia é consolidar a tendência.
Pelo terceiro ano consecutivo, o sector do mobiliário português deverá ver mais de metade da sua produção a ser canalizada para os mercados externos. A barreira dos 50 por cento foi ultrapassada em 2003 - altura em que o sector exportou 664 milhões de euros, 51,6 por cento da sua produção - e a tendência tem sido consolidar estes números. Segundo as previsões da Associação Portuguesa das Indústrias de Mobiliário e Afins (APIMA), a maior associação do sector, e que representa 80 por cento dos trabalhadores da indústria do mobiliário, as exportações deverão absorver entre os 53 e os 54 por cento da produção. A aposta nos mercados internacionais foi, mais do que uma visão, uma necessidade sentida pelos produtores nacionais, que não conseguiam comercializar internamente toda a produção. "Esse esforço começou a ser feito há cerca de oito anos, mas foi apenas em 2003 que os mercados internacionais ultrapassaram o mercado português", lembrou o presidente da APIMA, Jorge Brito. Os principais mercados de destino são a França (37 por cento), a Espanha (33 por cento), a Suécia (oito por cento) e o Reino Unido (cinco por cento); mas Angola e os mercados árabes, especialmente o Dubai, também procuram produtos de mobiliário português. Com os líderes de produção mundiais (a Itália e a Alemanha) na mesma Europa a 25 países em que Portugal se insere, Jorge de Brito considera honroso que Portugal já tenha garantido, em 2004, uma quota de 11 por cento nas exportações europeias. Portugal teve, aliás, a sexta melhor balança comercial com um saldo de 320 milhões de euros, em toda a Europa - um exemplo que merece ser tido em conta, sobretudo numa altura em que os dignósticos da crise económica apontaram o aumento das exportações e a aposta nos mercados internacionais como a terapia a seguir. Jorge de Brito afirma que Portugal está, paulatinamente, a garantir um lugar nos mercados internacionais pelo facto de "os industriais portugueses terem canalizados esforços para se modernizarem nas áreas da formação, da qualidade e do serviço". É nestas áreas que, sintetiza, Portugal pode rivalizar "com o que de melhor se vai fazendo no mundo". O presidente da APIMA afirma, mesmo, que Portugal se tem conseguido libertar da imagem de má qualidade, contrapondo as imagens em que, no passado, os compradores espanhóis não gostavam que a marca Made in Portugal estivesse visível, com as imagens actuais em que a qualidade do produto é de imediato identificada. "A aposta na formação e no design, e a renovação tecnológica a que as empresas se submeteram têm surtido os seus efeitos", sintetiza Jorge de Brito, para relembrar que esse é o caminho que pode ser trilhado por muitas outras empresas do sector. Por enquanto, são apenas 150 empresas, de um universo de cerca de quatro mil, as que se dedicam à exportação. A presença das empresas em feiras internacionais de relevo tem sido uma das principais apostas da associação, que tem contado com o apoio do Icep nesta sua estratégia de internacionalização. "Estes apoios têm sido fundamentais para dar visibilidade às empresas portuguesas. O próximo passo é conseguirmos garantir a organização de uma feira em Portugal, para onde possamos trazer delegações e centrais de compras internacionais para que os empresário portugueses que não conseguem participar nessas feiras no estrangeiro, possam mostrar os seus produtos", argumenta o presidente da APIMA. A maior feira do sector em Portugal, a Export Home, é organizada pela Exponor e arranca na próxima quarta feira. A organização prevê a presença de compradores de vários países, destacando a vinda de uma comitiva galega. Brasil preterido face à Russia.
China não é ameaça, "ainda"
Mais de uma dezena de empresas portuguesas vão estrear-se este mês no salão do Móvel do Brasil, numa tentativa de promover em São Paulo a qualidade dos produtos portugueses. As exportações de mobiliário português para o Brasil são praticamente residuais, com o gigante da América do Sul a fornecer-se sobretudo em países como a Alemanha, os Estados Unidos, a Itália, a França ou a Espanha. As elevadas taxas que os países do Mercosul aplicam aos produtos importados são uma das razões apontadas pelo presidente da associação do sector, Jorge de Brito, para justificar que o mercado brasileiro tenha vindo a ser preterido face, por exemplo, ao russo. A abordagem ao mercado de Moscovo foi feita em 2004, altura em que se detectou a procura por produtos da gama alta e média alta. "A apetência de compra é tão elevada como o cuidado que as empresas têm de ter para fazer o negócio", sintetiza Jorge de Brito, referindo que "já há empresas a exportar para a Rússia, e sempre com bons resultados". Durante o ano passado, a APIMA integrou uma missão empresarial à China, tendo o presidente da estrutura constatado que o gigante asiático não é uma ameaça "ainda", uma vez que permanece com muitos problemas na qualidade dos produtos. Mas repara que as empresas chinesas já marcam presença "em todas as feiras internacionais".
O Sector em Números 4000 empresas
65000 postos de trabalho directos
70 por cento das empresas estão num raio de 40 kms à volta da cidade do Porto; as restantes estão em Braga, Aveiro, Leiria e Lisboa
1450 milhões de euros foram produzidos pelo sector em 2004
765 milhões de euros de exportações
150 empresas exportadoras |