A indústria do mobiliário nacional está a impor os seus produtos nos mercados externos. As exportações estão a crescer e as ameaças, como os produtos provenientes da China ou os grandes retalhistas como a Ikea, estão a transformar-se em oportunidades. O crescimento das vendas no exterior é também uma solução para a sustentabilidade da actividade e o combate à recessão no mercado interno. A forte presença de empresas na Feira Internacional do Móvel de Valência, em Espanha, que decorre até domingo, comprova a apetência da indústria portuguesa por ganhar dimensão no mercado internacional.
No ano passado, a indústria de mobiliário exportou mais de 52% da sua produção (1.457 milhões de euros) e o objectivo para o actual exercício é aumentar em 10% as vendas no exterior. O principal mercado do mobiliário português é a França, seguida de perto por Espanha e, com menor destaque, pela Suécia. Mas os industriais estão atentos a novas oportunidades, nomeadamente à Rússia e à China. Em Novembro, o mobiliário português estará representado na Feira de Moscovo e há poucos dias uma delegação de empresários deslocou-se à China para analisar o mercado e encontrar vias para futuras exportações.
Sérgio Gomes, director comercial da Moveme (empresa de mobiliário presente na Feira de Valência), recorda que até há cinco anos a produção da fábrica destinava-se exclusivamente ao mercado interno. Para ganhar dimensão, a Moveme realizou vários investimentos de cariz fabril e avançou para o exterior. Neste momento, exporta essencialmente para Espanha, onde já conta com uma rede de agentes comerciais que cobre todo o território espanhol.
A entrada em força de outros fabricantes em Portugal, destacando-se os móveis espanhóis com preços altamente competitivos e retalhistas como a Ikea que aliam o design ao baixo preço, implicaram uma mudança na atitude dos industriais portugueses. Para Mário Brito, administrador da Brito’s, a concorrência dos fabricantes de outros países obrigou os industriais a ajustar as linhas produtivas aos novos gostos do consumidor e a adaptarem-se à descida dos preços a que se assistiu.
A Feira de Valência, onde estão presentes mais de 60 empresas de mobiliário portuguesas, é visitada por mais de 100 mil profissionais e uma porta de entrada em todos os continentes. Este evento comercial tem um impacto da ordem dos 10% nas exportações portuguesas. Para Jorge Brito, presidente da APIMA (Associação Portuguesa das Indústrias de Mobiliário e Afins) foi a qualidade dos móveis portugueses, aliada ao investimento em novas tecnologias de fabrico e à aposta num design contemporâneo que permitiram à indústria ganhar novos mercados.
Moveme vê na Ásia oportunidade de negócio A Moveme, empresa de mobiliário, decidiu apostar na comercialização de produtos decorativos e de iluminação e criou há dois anos a Intereme. Esta nova empresa importa essencialmente artigos fabricados no Extremo Oriente tendo em vista o mercado ibérico. Segundo Sérgio Gomes, director comercial da Moveme, a Intereme tem registado um grande crescimento nas vendas (a facturação ronda os 7,5 milhões de euros), sendo que 50% é obtido no exterior. Com apenas cinco trabalhadores, a empresa conseguiu inverter a ameaça asiática em oportunidade.
A Moveme tem o seu negócio ainda muito centrado em Portugal, mercado que representa 80% do seu volume de negócios. Só após a adaptação fabril efectuada há cerca de três anos é que a empresa direccionou esforços para a exportação. Neste momento, vende 17% para Espanha, mas exporta ainda para os EUA, Reino Unido, Chipre e Suíça. A empresa registou um volume de negócios de 10 milhões de euros em 2004.
Aquinos cresce sustentada na Ikea A Aquinos, empresa especializada no fabrico de sofás, vai duplicar a produção, um investimento da ordem dos 1,3 milhões de euros, de forma a poder responder ao contrato de fornecimento que formalizou com a multinacional sueca Ikea. Este ano, o gigante sueco já irá valer perto de 12% do volume de negócios da empresa. Carlos Aquino, administrador da empresa, prevê um ‘boom’ da actividade da Aquinos a partir de 2006, altura em que a empresa estará apta a fabricar 500 sofás/dia. A Aquinos tem três unidades fabris.
A fabricante de estofos, que já tem uma forte componente exportadora (em 2004, as vendas no exterior valeram 25% dos 18 milhões de euros facturados), apostou na criação de uma colecção assinada pelo estilista João Rôlo visando atrair o segmento económico médio e médio alto português e estrangeiro. Como salientou Carlos Aquino, a empresa estima um crescimento sustentado nas vendas para a Ikea e nas novas linhas de sofás.
*A jornalista viajou a convite da APIMA |